16/05/06
Artigo
O dia em que São Paulo parou
Informação x ausência de palavra ou sobre o dia em que a convocação da seleção ficou para segundo plano
por Fernando Megale
Eis que o que ocorreu nos últimos dias em São Paulo pode nos levar por diversos caminhos de argumentação: a violência, o lugar da lei, a posição do Estado, a relação do povo brasileiro com suas mazelas, e mesmo aquilo que já sabemos e não queremos ver. Nesse sentido, tudo parece ter acontecido como uma espécie de invasão do real da violência em nosso sonho coletivo denominado realidade. Por este raciocínio, aliás, aquilo que ouvimos freqüentemente nestes dias como pesadelo, é o mais duro encontro com o que não suportamos, mas que insiste em bater à nossa porta. E a insistência pode virar violência, num piscar de olhos.
A violência surge no exato instante em que as palavras não possuem mais sua função de mediação e de reconhecimento, diante dos desacordos que enfrentamos nas relações sociais e pessoais. Isto indica que a passagem à violência já é uma recusa em reconhecer o outro como um indivíduo possuidor de idéias e posições diferentes das minhas e, além disso, como alguém que merece ser escutado.
Ora, como afirma Melman em seu livro O Homem sem Gravidade – Gozar a qualquer preço (2003), na época em que vivemos instalou-se “... uma espécie de violência que se tornou um modo banal de relação social”. Efeito, por um lado, do não reconhecimento do sujeito, e por outro lado, da ineficácia das palavras e das instituições reconhecidamente “portadoras de palavras”, que deveriam servir como mediadores simbólicos nas relações sociais.
Outra possibilidade de enfoque deste comentário centraliza-se no efeito da proliferação de informações e boatos que provocaram uma verdadeira histeria coletiva na segunda-feira, dia 15/05.
A esse respeito, Freud nos dá indicações em seu texto Psicologia das Massas e Análise do Eu de 1921, ao discutir os movimentos grupais e as relações que se estabelecem no interior destes grupos. Freud afirma que os grupos, longe de desejarem saber da verdade que os anima, exigem ilusões e não podem passar sem elas. E continua: “Constantemente dão ao que é irreal procedência sobre o real; são quase tão intensamente influenciados pelo que é falso quanto pelo que é verdadeiro. Possuem tendência evidente a não distinguir entre as duas coisas”.
Neste sentido, com o objetivo de sustentar a própria ilusão, os grupos podem recorrer ao “poder mágico das palavras”, que tem a eficiência de entorpecer e provocar catarses coletivas, mas que em última instância, servem justamente para afastá-los (os grupos) de suas interrogações e dúvidas.
Em parte, parece que foi isto que ocorreu no último dia 15 de maio. Na completa ausência de palavras mediadoras e do reconhecimento mútuo entre os indivíduos e para com as instituições do Estado, os boatos “caíram como uma luva”, uma espécie de detonador de uma bomba que já havia sido atirada, porém que precisava ser calada a qualquer custo.
Deste modo, os boatos e o conseqüente medo e pânico provocados podem justamente servir para novamente mascarar aquilo que nos acordou do sonho em que vivemos, e que insistimos em chamar de “nossa realidade”.
Uma ressalva merece ser feita aqui: não estou negando a veracidade dos fatos violentos (a guerra), pelo contrário, mostrando como as palavras podem além de mediar e interceder, servir para criar véus ali onde algo de insuportável se manifesta em nossa sociedade.
E, quando acordamos, podemos voltar a pensar na convocação da seleção...
Fernando Megale é coordenador do curso de pós-graduação em Sócio-Psicologia da Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (EPG/FESPSP). Doutor e mestre em Psicologia, ele atua nas área de Psicologia do Desenvolvimento Social e da Personalidade.
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