17/05/06
Artigo
Crime e subversão: o dia em que a autoridade fracassou
Crime organizado, afronta à ordem pública e autoridade frágil e ineficiente na condução da crise conduziram ao pânico que paralisou a cidade de São Paulo.
por Rogério Baptistini Mendes
Alexis de Tocqueville escreveu que “nada é mais difícil de superar que as dificuldades que se consideram superadas”. E a razão parece estar ao seu lado, pois faz pouco tempo um representante do Estado, em entrevista coletiva, informou à população que a organização criminosa autodenominada Primeiro Comando da Capital (PCC) estaria desbaratada e a ordem pública garantida. Infelizmente, o segundo final de semana deste mês de maio demonstrou o contrário e deixa interrogações ecoando.
A despeito da chamada crise da segurança pública, anunciada e debatida insistentemente nestes dias, o que ocorreu nesta segunda-feira em São Paulo foi uma crise de autoridade. Afinal, o medo que levou os cidadãos a abandonar a rotina, deixando a cidade às moscas, demonstrou a ausência completa de confiança nos responsáveis pela manutenção da ordem pública. Tudo se passou como se a sociedade civil estivesse entregue à própria sorte, mergulhada na barbárie. E quando isso acontece, somente os bárbaros são capazes de se defender, como já dizia Nietzsche, no longínquo século XIX.
A falta de convicção na capacidade da autoridade constituída é o resultado mais grave dos episódios que culminaram na morte de inocentes e na destruição do patrimônio público e privado. Em que pese os pronunciamentos grandiloquentes dos governantes e de seus subordinados, o fato é que São Paulo parou por não confiar na capacidade dos que tem a responsabilidade por manter a ordem. Assim, o crime venceu, ainda que a atitude valorosa das policias civil e militar tenha levado ao estrangulamento do grupo faccioso.
A autoridade pública vem sendo corroída há muito tempo. A corrupção, a desfaçatez dos políticos, o contingenciamento de verbas com o objetivo de cumprir metas econômicas impostas desde fora da sociedade, tudo isso contribui para criar um sentimento social negativo quanto à grande política e aos políticos em geral. O desastre, no caminho seguido, estava anunciado e só não o viu quem não quis ver. A apatia em torno do tema das eleições, a desesperança quanto ao futuro coletivo e a ausência de mobilização em torno de temas públicos é um indicativo do fracasso de uma idéia de ordem e de descrédito nos seus mantenedores.
Some-se a isso a falta de comando e a dificuldade política do governador de São Paulo na gerência da crise, provocada pelo secretariado, herdado e imposto pelo partido do seu antecessor, e temos um bom indício para tentar compreender o que aconteceu neste dia 16 de maio.
Somente o imprevisto pode explicar a seqüência de ações criminosas dos últimos dias, o que significa que a autoridade estava despreparada. A reação rápida e enérgica, contudo, não foi eficaz, pois permitiu a instalação do pânico, principalmente por conta da difusão, pela mídia eletrônica, das imagens da violência. Estas, entretanto, cumpriram o esperado pelo bando que as criou, instaurando o sentimento de desordem e de falência da autoridade.
Se o governador tivesse o comando do secretariado e uma visão clara da realidade, deveria ter tomado providência para impedir a derrota psicológica, flanco principal da guerra que quis deflagrar a liderança criminosa.
O crime venceu porque a autoridade não foi capaz de impedir que uma ação de guerrilha, coordenada por indivíduos encarcerados sob a guarda do Estado (!), desencadeasse a onda de medo e incerteza social. A sociedade reagiu de forma desesperada porque a violência explorada espetacularmente a derrotou no campo psicológico. O poder público foi ineficiente exatamente onde não poderia ser, pois foi incapaz de mobilizar nos governados a confiança nos homens e nas instituições responsáveis pela manutenção da ordem pública.
A autoridade, já destroçada por sucessivos episódios, foi desmoralizada por conta de um governo que não soube praticar a arte do leme. Foi incapaz de se adaptar às circunstâncias e antever os desfechos sociais do episódio criminoso. Atribuir apenas aos boatos o pânico que levou empresas a dispensar funcionários e cerrar as portas, escolas a suspender aulas, repartições a encerrar o expediente, é considerar as dificuldades superadas e não aprender com os erros. Mesmo com os veículos de comunicação em massa ao alcance das mãos, o governo não conseguiu centralizar uma comunicação permanente e precisa para evitar as informações desencontradas e o caos. Já os criminosos articularam toda sua ação, inclusive o cessar fogo, usando simples celulares.
Neste momento, a principal tarefa da cidadania diz respeito à reconstrução da Ordem Pública constitucional e ao resgate da Autoridade democrática enquanto poder legítimo, baseado na renovação periódica por meio das eleições. Sem isso, a própria idéia de República corre o risco de desmoronar. E então será tarde demais.

Rogério Baptistini Mendes é Doutor e mestre em Sociologia. Atua nas áreas de Sociologia, Pensamento Social Brasileiro, Estado e Governo e Sociologia do Desenvolvimento. Suas linhas de pesquisa são o Estado e Política no Brasil e Pensamento Social Brasileiro. Na FESPSP é o Coordenador do Curso de Pós-Graduação Lato-Sensu Globalização e Cultura; integra o Grupo de Estudos em Economia Política Paulista. Também foi Coordenador do Núcleo de Pesquisas em Ciências Sociais durante o ano de 2002 e primeiro semestre de 2003. Neste tempo participou de projetos executivos, como o Projeto “Gestão Metropolitana” e “Análise dos Custos Econômicos, Sociais e Humanos dos Acidentes de Trabalho no Município de São Paulo”. |