07/03/06
Defesa de Tese: Relações de Diferença no Brasil Central
A defesa da tese da Profª Clarice Cohn, Relações de Diferença no Brasil Central: os Mebengokré e seus Outros, aconteceu ontem, dia 07 de março, às 14 horas, no salão nobre do prédio da administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A tese foi avaliada por banca composta pela Profª Drª Beatriz Perrone-Moisés (orientadora), Profª Drª Dominique Tilkin Gallois (USP), Profª Drª Vanessa Rosemary Lea (Unicamp), Profº William H. Fisher, Ph.D. (William & Mary College) e Profº Terence Turner, Ph.D. (Cornell University).
Resumo da tese
Relações de Diferença no Brasil Central: os Mebengokré e seus Outros
Tese de Doutorado apresentada ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)
Orientadora: Profª Drª Beatriz Perrone-Moisés
Março de 2006
Com base em extensa pesquisa com os Xikrin do Bacajá (Pará), esta tese discute os regimes de abertura para o Outro dos Mebengokré. Parte-se de uma análise de narrativas que tematizam a passagem de Mesmo a Outro ou seu inverso, para elucidar as relações de diferença que criam Mesmos e Outros, e essas posições relacionais.
Como possibilidades lógicas essas passagens não constituem problema: este se configura na indefinição da posição que se ocupa a cada momento. Busca-se então elaborar as condições dos processos de identificação e diferenciação.
Discutem-se as modalidades de preensão e o que se preende, e demonstra-se que com isso se realiza a construção de Mebengokré em pessoas, relações e coletivos.
Demonstra-se assim que aquilo que permite esta construção é constantemente produzido e enriquecido a partir de um sistema constituído por relações pautadas por troca, guerra, xamanismo e caça, ou pela invenção e inovação, que mantêm não só a existência, mas principalmente a potência criativa de nomes e adornos, cultivares e carne, cantos e rituais com que se criam novas pessoas mebengokré. Parte-se então para uma discussão de como essas relações se dão, especialmente as relações guerreiras e de troca.
Relatos de expedições guerreiras ilustram a produtividade da guerra, mas sua ausência é então tematizada, já que a situação contemporânea em que vivem os Xikrin é a da “pacificação”, do estabelecimento de relações pacíficas com o Estado que se estendem a todos e leva à abolição da guerra em seu sistema de relações e preensão. Abordando então o processo de pacificação e as relações contemporâneas por ele estabelecidas, argumenta-se que o problema não está na ausência da guerra, que em certo nível pode ser substituída pelas demais modalidades de preensão, mas na interrupção da alternância entre guerra e aliança, entre inimizade e amizade, que garanta ao mesmo tempo a produtividade dessas relações de diferença e a manutenção da diferença.
Conclui-se que o desafio atualmente enfrentado pelos Xikrin consiste em evitar a indiferenciação e a diluição da diferença, e portanto a impossibilidade de criar novos mebengroké, ou, como apontam as narrativas, a possibilidade de criar apenas versões enfraquecidas de Mebengokré.
Tendo-se indicado o valor da guerra, as modalidades de preensão contemporâneas e as respostas a esse dilema atual são assinaladas e examinadas.

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