14/02/06
Aula Magna 2006: Glauco Arbix, presidente do IPEA
“O Brasil está menos desigual”, com essa frase Glauco Arbix, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), iniciou a Aula Magna 2006 da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), na sexta-feira, dia 10 de fevereiro.
Na sua preleção, o professor Arbix explicou que apesar do problema da pobreza persistir e de alguns setores insistirem na abordagem pessimista, todos os indicadores mostram avanços nessa questão. “Só no último ano o número de pobres e de extremamente pobres diminuiu em mais de 3 milhões”. Mais da metade da queda na pobreza do último ano se explica pela redução na desigualdade. No caso da extrema pobreza, este fator é responsável por 75% dessa redução.
Segundo Arbix, todos os pesquisadores e instituições que estudam o assunto são unânimes: a desigualdade diminuiu. Existe uma percepção que programas de transferência orientado para os mais pobres e a expansão da ocupação no mercado de trabalho com mais pessoas por família trabalhando, foram fatores determinantes, no entanto, ninguém sabe exatamente os motivos dessa queda.
O IPEA está encarregado de constituir e liderar uma comissão de especialistas para precisar as razões. “Quem estuda a desigualdade e a pobreza está direta ou indiretamente ligado ao IPEA, temos notório saber e, além de constituir essa comissão, vamos liderar um estudo internacional sobre o tema com instituições européias”.
Os indicadores
Os estudos do IPEA mostram que para os mais pobre a situação só melhorou na última década. Neste período 70% da população teve aumento de rendimentos familiares. A renda dos mais pobres cresceu pelo menos 10%. Apesar da queda na renda média, os 11% mais ricos tiveram perdas, quem mais ganhou foram os 20% mais pobres e quem mais perdeu foi o 1% mais rico. “O que ocorreu foi uma mudanças dos extremos, queda dos muitos ricos e aumento da renda dos muito pobres. Se é para haver perdas essa foi a melhor situação possível”, justifica Arbix.
Para ilustrar esse fenômeno, pode-se tomar como exemplo uma família verdadeira (PNAD), de quatro pessoas, que estava em 2001 entre os 10% mais pobres do país vivia com uma renda familiar total que hoje corresponderia a 209 reais. Famílias semelhantes, em 2004, viram sua renda total crescer para 239 reais, um aumento real de 14% em três anos. O Brasil cresceu para os pobres. A taxa de crescimento da renda dessa família foi de 4,5% ao ano. “Pode ser um aumento nominal pequeno, mas é impactante para as famílias que estão nessa situação”, explica o presidente do IPEA.
Combate a desigualdade reduz a pobreza
Os estudos e análises do IPEA mostram que o crescimento econômico do país, por si só, não diminui a desigualdade entre os cidadãos. Assim como qualquer ação isolada, seja uma política de qualificação ou aumento de vagas no mercado de trabalho, também não teriam efeitos isoladamente. Não existe colocação no mercado de trabalho para o brasileiro extremamente pobre. “Ele está totalmente excluído, primeiro precisamos tirá-lo dessa situação de fome para que ele possa se educar e qualificar”, diz Arbix.
Para o pesquisador, é impossível combater a desigualdade sem políticas compensatórias, ações de proteção social são determinantes e para um resultado positivo é preciso combinar o crescimento econômico com aumento da escolarização, expansão do mercado de trabalho, evolução e consolidação das instituições democráticas.
Ao final de sua exposição, o professor Arbix defende que momentos de reflexão, como a Aula Magna da FESPSP, são uma forma elevada do exercício da cidadania. “Temos que enfrentar a realidade sem medos, o Brasil sai feio na foto, mas ainda tem muita saída, muita solução”.
Professor do Departamento de Sociologia da USP, é doutor em Sociologia (USP) e foi professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp e da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Possui pós-doutorado na London School of Economics, e foi pesquisador visitante no Massachusetts Institute of Technology (MIT-EUA), em 1999, e na School of Industrial and Labor Relations em Cornell University (EUA), em 1996.
O que é o IPEA
Instituto é pioneiro em estudos na área econômica
Criado há 40 anos, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA – é pioneiro na disseminação de informações e conhecimentos sobre a área econômica do País. Vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, o IPEA produz pesquisas, projeções e estudos macroeconômicos, setoriais e temáticos com o intuito de subsidiar o governo na produção, análise e difusão de informações voltadas para o planejamento e a formulação de políticas.
Por sua relevância, passou a ser conhecido, ao longo de sua existência, como a entidade que tem a missão de “pensar o Brasil”. Atualmente, conta com 559 servidores. Destes, 299 são técnicos, em sua maior parte pesquisadores. Com idade média de 45 anos, 70% deles possuem doutorado e mestrado.
A idéia de uma instituição com esse objetivo surgiu em meados de 1964, quando foi criado grupo de trabalho formado por técnicos brasileiros de alto nível e alguns consultores estrangeiros. O objetivo era estabelecer as bases de um sistema de pesquisa econômica e de planejamento para o País.
Primeiro, surgiu o Escritório de Pesquisa Econômica Aplicada (EPEA), em 10 de setembro de 1964, que teve como coordenador técnico o ex-ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso. Posteriormente, o Decreto 60.457, de 13 de março de 1967, instituiu a Fundação Instituto de Pesquisa Econômico-Social Aplicada (IPEA). E por fim, a partir de 17 de maio de 1990, por meio do Decreto 99.260, a entidade passou a denominar-se Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, com a atribuição de elaborar estudos, análises e pesquisas nas áreas econômica e social brasileiras.
Galeria de imagens
Veja a apresentação da Aula Magna 2006

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